As últimas semanas trouxeram à ribalta muitos textos sobre a Guiné, entre eles, um longo texto (passa pleonasmo) sobre a Al-Qaeda na Guiné. O texto traz muitas coisas, particularmente, aquilo que designamos na gíria guineense por “nobas”, mas não nos traz nenhuma informação jornalística credível. A imagem com que ficamos na lonjura do texto é de que nadamos numa exposição do jornalismo por encomenda. Isso não quer dizer que quem está fora do país não pode escrever ou não pode opinar sobre o mesmo. Não, não é isso. O que se quer dizer é que tendo em conta a inquestionável impossibilidade da neutralidade, o rigor da informação se apresenta como a única garantia da sua fiabilidade. Isso quer ainda dizer, que não se pode fazer colagem forçada de alguns acontecimentos casuísticos à situação actual em que o país se encontra.
Não é porque o país se decidiu drogar com o narcotráfico que a Al-Qaeda se lembrou de ir pedir esconderijo à desordem guineense. Al-Qaeda é o terror dos tempos modernos que está onde quer estar, embora nem sempre consiga estar quando quer estar. E, a Al-Qaeda já demonstrou que é uma organização multifacetada com inúmeras possibilidades de assimilar e de se adaptar segundo as circunstâncias. Julgo que não é demais lembrar que os EUA, a Inglaterra ou Espanha não são países que se possa etiquetar de desorganizados mas, mesmo assim, neles a Al-Qaeda fez o que todo o mundo sabe. E julgo ainda que é do conhecimento da opinião pública informada o que se está a passar neste momento na Europa em relação ao terrorismo. Em Barcelona foram presos 15 indivíduos suspeitos de ligação à Al-Qaeda e sabe-se que a polícia portuguesa está atrás de dois cidadãos paquistaneses, também eles, suspeitos de envolvimento com a rede radical islâmica, e mais, no mês de Dezembro foi preso no Porto um indivíduo de nacionalidade marroquina por suspeita de pertencer à Al-Qaeda. No fundo, independentemente da instabilidade guineense, a verdade é que os factos da Al-Qaeda falam por si e é, também por isso, que não se deve apoiar em qualquer tipo de argumento florescente para fazer valer uma verdade inexistente. Por tudo isso, penso que a comunidade internacional, refiro-me àquela comunidade internacional muito bem informada da história da violência política e social guineense, e não àquela que o desejo da vingança e os ajustes de conta nos faz criar, nunca estará preocupada de forma alarmista com a possível organização do movimento radical islâmico na Guiné por uma simples razão: É que se é verdade que a história política guineense é compatível com a violência, também, não é menos verdade que esta mesma história se revela incompatível com a violência sectária. Ora, como todos sabem, a Al-Qaeda é cunhada por uma ideologia religiosa sectária. Não é a pobreza ou a desordem que dita o acolhimento dos movimentos ideológicos, sejam eles políticos ou religiosos, mas sim “o espírito do tempo”. E não se trata aqui de um “espírito do tempo” puramente hegeliano, mas da realidade concreta do que é a Guiné hoje; e a Guiné hoje é tudo menos uma partilha de poder sem lucro para os bolsos dos dirigentes e dos militares e é de conhecimento de todos que a Al-Qaeda não traz lucro.
Aproveito aqui para lembrar também que alguns tinham profetizado a desintegração da Guiné, a intervenção militar da ONU e até uma possível invasão norte-americana no país coisa que sempre contestei. Tudo isso não aconteceu pois não? A grande resposta que vimos é que a comunidade internacional, aquela comunidade internacional consciente da necessidade da estabilidade da Guiné sem a coerção de terceiros, doou dinheiro para o bolso dos governantes sob pretexto de que quer participar na luta contra a droga no país. Isto quer, simplesmente, dizer que a política não é o que os cibernautas ou os cidadãos comuns querem, mas sim, aquilo que é neste momento presente, ou seja, aquele sic et nunc, o aqui e agora que Maquiavel impingiu a toda a realidade cujo nome é política.
O que deve preocupar aos guineenses não é a possível presença da Al-Qaeda no país, mas como fazer com que ela não esteja presente no país. A Guiné não responde a esta pergunta porque não reúne condições para responder, assim como um grande número de países, inclusive ocidentais, não reúne condições para responder à dita pergunta. O que não quer dizer que na Guiné ou nos outros países não se deve ter a preocupação com o movimento radical islâmico. Simplesmente não se deve chamar Al-Qaeda onde ela não está nem faz intenção de estar.
Para finalizar, quero voltar à questão de forjar a verdade através de argumentações simplistas e de provas inexistentes. Os “tipos” que foram presos na Guiné não foram lá porque o país é instável ou porque se vende droga, mas por um hábito da transitoriedade criada na Guiné. Quantos estrangeiros daquela sub-região entram para a Europa e para os Estados Unidos com os documentos guineenses sem serem terroristas?
Vamos discutir o país? Sim, mas com a verdade e objectividade. Ah, e outra coisa: eu só respondo a alguns.
Chamar-me-ão ninista? Sim, com muita pena minha, mas neste artigo concreto prefiro sê-lo. Pois como diz Aristóteles, sou muito amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade.