domingo, 27 de abril de 2008

ZIMBABUÉ, DO TERROR DEMOCRÁTICO À RESIGNAÇÃO



O convite era que eles dançassem a “Polonaise” de Chopin em lá bemol maior num ritmo africano, antes de qualquer ensaio prévio, e a resposta foi: “Não, aqui Chopin certamente, a este andar, adormecia-nos”. Dito isto, nunca mais ninguém se lembrou de fazer uma contraproposta, talvez por isso, o Zimbabué tem vindo a incarnar o rosto do terror democrático em África. O terror democrático expresso nos rostos bifurcados. De um lado, o rosto do velho Mugabe com a pele a despedir-se do ar seco e do ambiente agreste e comprometedor, por aquilo que os seus anos no poder representam politica e socialmente para o país. Do outro, o rosto quase irreconhecível do povo, de tanto sofrer e de tanto esperar numa esperança abundante, mas que afinal não era para eles, como já o dizia Kafka.
Neste encontro dos desencontrados, a comunidade internacional vai gritando e brandindo, orgulhosamente, as proezas das suas sanções, que no fundo não são contra Mugabe, mas sim contra o povo que, por sinal, já está suficientemente fustigado por este, pelo ódio ofuscante que o anima contra os ocidentais e, em particular, contra os ingleses, ou melhor, contra os sucessivos Governos das terras da sua majestade. É pois, nesta complexa nuvem de um palco mal preparado e de um povo que resiste a dançar a música clássica em tons da democracia envernizada, que o país do octogenário, que outrora foi o símbolo de libertação e hoje um decadente mal humorado, resiste a não ser sepultado na cova da urna.
O terror democrático reside no facto de que Mugabe não pode perder e reside também no facto de que alguma franja daquele povo sofredor ainda o vê como herói e salvador do país que eles pensam que existe, mas que no fundo não passa de um moderno campo de concentração, onde as pessoas não morrem asfixiadas com gazes, mas onde morrem com o medo de serem quem são.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

KADAFI E O ARABISMO


O ultimato lançado, há dias, na véspera de mais um “encontro-festa” dos líderes africanos pelo coronel Kadafi, faz lembrar a querela dos finais dos anos 50 e início de 60, de um lado a teoria da africanidade e de outro, a teoria de arabidade. Num desabafo à imprensa, o coronel disse que se os líderes africanos, isto é, da África negra, não fizerem esforços para se entenderem, ele iria, simplesmente, virar-lhes as costas. Mas, para onde é que iria? Para a associação mediterrânica ou para o mundo árabe. A questão é: será que o coronel faz falta a nível da geopolítica e geoestratégica a estes dois espaços? Julgo que não. O coronel Kadafi, apesar de vestir a capa dos recém-convertidos à não-violência, continua a ser uma pólvora política ambulante e ninguém neste mundo de tensão quer estar ao lado das bombas ambulantes. Sarkozy que o diga.
Se o coronel decidir levar avante a sua ameaça, fabricará o seu auto isolamento e voltará a experimentar a sua longa caminhada do deserto. Na África negra pode gritar porque tem mais dinheiro e porque tem mais tecnologia e, sobretudo, porque sempre olhou para os seus colegas com um ar de superioridade. Aliás, razão pela qual, como diz um analista, a sua arrogância era a única que conseguia unir os presidentes: Sekou Touré, Senghor e Félix Houphouet-Boigny. Assim, é de esperar que o coronel não saia nem venha um dia a decidir sair. Nas zonas mediterrânicas não poderá levantar a voz, pois poucos dependem dele e no espaço árabe acontecerá o mesmo até porque aí, ele nunca foi ouvido, nunca foi tratado como um rei e nunca recebeu o protagonismo que desejou.
Poder-se-ia perguntar, também, se o coronel quer ressuscitar o arabismo dos anos cinquenta e sessenta no continente. É pouco provável, até porque esta corrente morreu pela sua própria contradição. Árabes entre os africanos e africanos entre os árabes, motivos suficientes para a porem a andar, quer de um lado quer do outro.
No entanto, o alerta do coronel não deixa de ser significativo. Contrariamente à ideia que deu aquando da cimeira Europa-África, com as acusações virulentas contra as potências coloniais, o desabafo do coronel pode ser lido como um reconhecimento da própria incapacidade da UA em gerir o seu destino. Sartre já tinha avisado no prefácio à obra de Senghor: “um dia vocês não poderão mais reclamar contra os outros, se o fizerem estarão a assinar o fracasso das vossas independências.” Os estudantes e especialistas da Negritude devem estar, neste momento, a rever as argumentações de Sartre no desespero de Kadafi.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

REPESCAR A MEMÓRIA

A DESINTEGRAÇÃO DA GUINÉ, REALIDADE OU BOATOS FORÇADOS

Numa lógica laboral onde tudo funciona como deve ser é normal que cada um faça o seu trabalho e, sobretudo, que o faça como deve ser. Assim, nesta óptica de raciocínio, a notícia publicada há dias no NL, que dava conta de que a Guiné-Bissau corre o risco de desintegração, não pode deixar de ser percebida como uma tentativa de fazer bem o trabalho que nos foi confiado.
A Guiné é um boom e não precisa do narcotráfico para se desintegrar e nenhum fenómeno social ou de delinquência económica pode ser mais violento que o próprio ambiente histórico tradicional, político e militar guineense. Isto não é uma profecia, é uma realidade material com a qual convivemos há mais de trinta anos. Não se pode, por isso, falar da desintegração da Guiné por causa da droga, mas, provavelmente, de uma redefinição da desintegração do território guineense à luz dos novos interesses.
Como dissemos em artigos anteriores, curiosamente publicados há mais de dois meses (Os olhos postos na Longitude e a A grande “selva” selvagem” de 28 de Abril e 19 de Julho), o problema do alarme do narcotráfico na Guiné, apesar de ser político-militar, não é, nem de perto nem de longe, um problema guineense, é, antes de tudo, um problema Ocidental, é um problema europeu e americano.
O rendimento e a economia guineense não permitem que o guineense lide com o fenómeno da droga, a não ser que todos decidam ser funcionários da droga; ora isso é impossível, uma vez que a própria estrutura hierárquica do narcotráfico não quer qualquer guineense para o correio de tráfico, mas sim o guineense. É por isso que é inconcebível e insustentável prever que o país se desintegre simplesmente por narcotráfico; o Brasil e a própria Colômbia apesar da guerra civil deste último, são exemplos de Estados com muito narcotraficantes e que nem por isso são desintegrados. Será que vamos dizer que policias, militares brasileiros ou colombianos entram de mãos abanar em favelas, e isso é desintegração?
Também é abordada a questão de que a instabilidade na Guiné pode mexer com os Estados vizinhos, o que também não deixa de ser questionável, por uma simples razão, de que a Guiné-Bissau nunca foi um Estado estável. Aqui, a correlação não é linear. Cada país tem os seus próprios problemas e que, de modo particular, naquela região é explicável a partir do não entrosamento étnico e regional no relacionamento da vida política e militar. É o caso do Senegal com a questão de casamancesa, é o caso da Serra Leoa com a dicotomia Norte-Sul que se repete também na Costa do Marfim, na Libéria é o ajuste de contas entre a originalidade das elites sociais e políticas, o trauma da americanização africana falhada.
Na Guiné-Bissau não há desintegração e não vai haver desintegração a não ser que os militares guineenses o queiram, mas eles não a querem, porque eles já são ricos e sabemos que quanto mais rico o homem for mais medo ele tem da morte violenta. Alguém se lembra onde o Nino foi encontrado na guerra de 7 de Junho, alguém se lembra de onde Sadam Hussain foi encontrado? É o reflexo do rico que tem tudo a perder e, neste momento, os pobres militares que se enriqueceram à custa da corrupção não estarão dispostos a voltar ao ponto zero do alto pedantismo.
Da mesma maneira é irrealista associar a fragilidade guineense ao terrorismo, até porque esta eventualidade não é um posicionamento recente, uma vez que a imposição do Nino pela comunidade internacional tem justamente a ver com isso. Nino está na presidência porque a comunidade internacional estava convencido de que um homem forte actuaria com mão forte sobre um Estado falhado e consequentemente, impediria os focos do terrorismo internacional. Se ONU declarar o território guineense como sendo o lugar de lavagem de dinheiro para o terrorismo internacional, fá-lo-á por conveniência da má informação e não pela constatação da realidade. Os estudos divulgados na imprensa têm mostrado que há cada vez mais drogas a circular em Portugal e que há também muita gente a cultivar drogas nas suas propriedades. Será que a ONU vai declarar Portugal como um Estado de lavagem de dinheiro para os terroristas? E se falássemos de coisas sérias com objectivos sérios e deixarmos as guerras de ajustes de conta para o campo privado?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A UTOPIA OU A PROFECIA DA DESGRAÇA


As últimas semanas trouxeram à ribalta muitos textos sobre a Guiné, entre eles, um longo texto (passa pleonasmo) sobre a Al-Qaeda na Guiné. O texto traz muitas coisas, particularmente, aquilo que designamos na gíria guineense por “nobas”, mas não nos traz nenhuma informação jornalística credível. A imagem com que ficamos na lonjura do texto é de que nadamos numa exposição do jornalismo por encomenda. Isso não quer dizer que quem está fora do país não pode escrever ou não pode opinar sobre o mesmo. Não, não é isso. O que se quer dizer é que tendo em conta a inquestionável impossibilidade da neutralidade, o rigor da informação se apresenta como a única garantia da sua fiabilidade. Isso quer ainda dizer, que não se pode fazer colagem forçada de alguns acontecimentos casuísticos à situação actual em que o país se encontra.
Não é porque o país se decidiu drogar com o narcotráfico que a Al-Qaeda se lembrou de ir pedir esconderijo à desordem guineense. Al-Qaeda é o terror dos tempos modernos que está onde quer estar, embora nem sempre consiga estar quando quer estar. E, a Al-Qaeda já demonstrou que é uma organização multifacetada com inúmeras possibilidades de assimilar e de se adaptar segundo as circunstâncias. Julgo que não é demais lembrar que os EUA, a Inglaterra ou Espanha não são países que se possa etiquetar de desorganizados mas, mesmo assim, neles a Al-Qaeda fez o que todo o mundo sabe. E julgo ainda que é do conhecimento da opinião pública informada o que se está a passar neste momento na Europa em relação ao terrorismo. Em Barcelona foram presos 15 indivíduos suspeitos de ligação à Al-Qaeda e sabe-se que a polícia portuguesa está atrás de dois cidadãos paquistaneses, também eles, suspeitos de envolvimento com a rede radical islâmica, e mais, no mês de Dezembro foi preso no Porto um indivíduo de nacionalidade marroquina por suspeita de pertencer à Al-Qaeda. No fundo, independentemente da instabilidade guineense, a verdade é que os factos da Al-Qaeda falam por si e é, também por isso, que não se deve apoiar em qualquer tipo de argumento florescente para fazer valer uma verdade inexistente. Por tudo isso, penso que a comunidade internacional, refiro-me àquela comunidade internacional muito bem informada da história da violência política e social guineense, e não àquela que o desejo da vingança e os ajustes de conta nos faz criar, nunca estará preocupada de forma alarmista com a possível organização do movimento radical islâmico na Guiné por uma simples razão: É que se é verdade que a história política guineense é compatível com a violência, também, não é menos verdade que esta mesma história se revela incompatível com a violência sectária. Ora, como todos sabem, a Al-Qaeda é cunhada por uma ideologia religiosa sectária. Não é a pobreza ou a desordem que dita o acolhimento dos movimentos ideológicos, sejam eles políticos ou religiosos, mas sim “o espírito do tempo”. E não se trata aqui de um “espírito do tempo” puramente hegeliano, mas da realidade concreta do que é a Guiné hoje; e a Guiné hoje é tudo menos uma partilha de poder sem lucro para os bolsos dos dirigentes e dos militares e é de conhecimento de todos que a Al-Qaeda não traz lucro.
Aproveito aqui para lembrar também que alguns tinham profetizado a desintegração da Guiné, a intervenção militar da ONU e até uma possível invasão norte-americana no país coisa que sempre contestei. Tudo isso não aconteceu pois não? A grande resposta que vimos é que a comunidade internacional, aquela comunidade internacional consciente da necessidade da estabilidade da Guiné sem a coerção de terceiros, doou dinheiro para o bolso dos governantes sob pretexto de que quer participar na luta contra a droga no país. Isto quer, simplesmente, dizer que a política não é o que os cibernautas ou os cidadãos comuns querem, mas sim, aquilo que é neste momento presente, ou seja, aquele sic et nunc, o aqui e agora que Maquiavel impingiu a toda a realidade cujo nome é política.
O que deve preocupar aos guineenses não é a possível presença da Al-Qaeda no país, mas como fazer com que ela não esteja presente no país. A Guiné não responde a esta pergunta porque não reúne condições para responder, assim como um grande número de países, inclusive ocidentais, não reúne condições para responder à dita pergunta. O que não quer dizer que na Guiné ou nos outros países não se deve ter a preocupação com o movimento radical islâmico. Simplesmente não se deve chamar Al-Qaeda onde ela não está nem faz intenção de estar.
Para finalizar, quero voltar à questão de forjar a verdade através de argumentações simplistas e de provas inexistentes. Os “tipos” que foram presos na Guiné não foram lá porque o país é instável ou porque se vende droga, mas por um hábito da transitoriedade criada na Guiné. Quantos estrangeiros daquela sub-região entram para a Europa e para os Estados Unidos com os documentos guineenses sem serem terroristas?
Vamos discutir o país? Sim, mas com a verdade e objectividade. Ah, e outra coisa: eu só respondo a alguns.
Chamar-me-ão ninista? Sim, com muita pena minha, mas neste artigo concreto prefiro sê-lo. Pois como diz Aristóteles, sou muito amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

EM MADRID, “DEUS É ATEU”


Os ventos vindos da América Latina e dos anos sessenta e setenta da Teologia da Libertação, parecem estar a pairar numa pequena paróquia duma zona periférica de Madrid. À primeira vista, ao entrar na Igreja de São Carlos B, ficamos com a ideia de que estamos num ambiente tipicamente da Esquerda Selvagem, onde a vontade de liberdade e de igualdade irrompe com o conceito natural dos limites e da definição dos padrões da ortodoxia religiosa e do culto de um Deus pessoal.
À medida que se vai inteirando do espaço, do ambiente, dos olhares estranhos que se cruzam e se familiarizam com uma vontade estranha e louca de viver Deus, aqui e agora, este Deus deixa de ser um Ser que se apresenta como promessa e passa a ser vivido e sentido como uma espécie de força da natureza que actua no amor concreto, já outrora anunciado por Cristo. O celebrante, como um conferencista pedagogo vai ouvindo e dialogando com todos os participantes na assembleia litúrgica. Uma liturgia muito estranha para ser enquadrada no cânon cristão, mas, nem por isso, menos ortodoxa que aquelas que se querem cristãs e católicas, uma vez que a liturgia é, antes de tudo, a harmonia do culto seja ele político, social ou religioso.
A alegria que se fazia ver no rosto dos participantes permite ler que havia uma tensão entre um Deus que se quer local (numen locale) e um Deus que se quer, e se sente, pessoal e limitador do espírito criativo da necessidade que o crente sente em viver a sua fé (numen personale), visto que no plano espacial, o espírito se sente ilimitado e prefere voltar sempre àquele mesmo sítio para fazer a sua verdadeira adoração sem constrangimento e sem um engaiolamento do dogma do Credo. O pano de fundo parece ser a urgente transformação dentro da Igreja a partir de uma maior criatividade e de uma aproximação real aos mais necessitados.
Muitos nomes sonantes da Teologia, outrora dita de Libertação e substituída hoje por uma Teologia da marginalização, já passaram pela paróquia de São Carlos Borormeo para manifestar a solidariedade e proporcionar jornadas teológicas; entre eles destacam-se, o brasileiro Leonardo Boff um dos expoentes máximo da Teologia da Libertação, sendo que também se pode contar nomes de intelectuais espanhóis como Enrique de Castro, autor do livro cujo título este artigo se apropriou, assim como Enrique Martinez Reguera com quem tive a oportunidade de falar e de trocar livros e correspondência.
Em Madrid, Deus está a ser ateu, como Cristo o fora no seu tempo, por se juntar aos mais pequeninos e distanciar-se do cânon religioso e social. Porém, apesar da pressão que se pode sentir nos responsáveis da paróquia, a verdade é que o pedaço de Deus que trazem consigo, como diz uma alma pura espanhola, é mais contagiante do que parece, é um regresso à vida dos “cristofores” dos primeiros séculos do cristianismo.




Ps: Artigo escrito para a revista "Prestígio" do mês de Novembro

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A NOITE COMO O LUGAR DA CONSCIÊNCIA DA FÉ E DA CRENÇA



Como as chamas de uma vela que embelezam as Igrejas, as catedrais, as sinagogas… os lugares de culto, à medida que se vão desgastando, assim a noite é para o homem que procura e se procura, o lugar da beleza e da dor, o lugar da realidade e do horror, pois ela, é o lugar de encontro entre a alegria da vida e a sua dor, o espaço em que a bondade de Deus e a sua grandiosidade se cruzam com a revolta e a impotência humana, é o lugar onde também Deus conhece a sua própria noite a partir da renovação e do reviver da estrada de Gólgota ao Calvário na pessoa do humano sofredor.
A noite é, ainda, o lugar onde o homem antes de encontrar ou procurar Deus, Deus o procura e o encontra sem violar o espaço da liberdade humana. O Deus que desce na sombra da noite é, antes de tudo, um Deus humano, um Deus humanizado pelo próprio homem porque toma e traz consigo as diferentes formas de sofrimento do homem.
É em Deus que ele consegue viver pobremente, sem, no entanto, ser miserável. É o cheiro, o odor e o temor de Deus que faz com que ele consiga ler nos seus semelhantes a linguagem de solidariedade e de compaixão. E, isso chama-se fé porque é vivido, é compreendido e é habitado por algo que nos é transcendente. Esta fé é o oposto da crença que me diz o que devo fazer simplesmente porque a regra, o costumo, o sistema e o hábito, prescreveram que assim seja.
Ps: Publicado no Jornal Ágape do mês de Outubro.

sábado, 6 de outubro de 2007

O PAÍS SOCIALISTA DOS NOSSOS DIAS


A convulsão mundial em que o pântano político se mergulhou tem estado muito favorável ao presidente venezuelano Hugo Chavez. Enquanto o mundo de segurança e de insegurança se guerreiam no Iraque, na Afeganistão, na Tchetchenia russa, em Guantánamo e no mortífero Darfur não árabe, ou melhor, na porção infiel do território sudanês, o presidente Chavez vai alargando as bases do seu novo Estado de Direito na linguagem socialista. Animado pelo sono do anti americanismo que fustiga muitas capitais da política mundial, o senhor da Venezuela vai arrastando para junto de si o tempo da consciência que ainda resiste ao absolutismo que espreita a Venezuela através do populismo e da demagogia.
O fardo dos erros que a América trás “nas costas” através da pessoa de Bush faz com que a opinião mundial se apresse a alinhar-se com tudo que se apresenta como uma alternativa à América dos erros, pouco importa se esta suposta alternativa é uma demagogia ou um trampolim para o absolutismo e ditadura do novo populismo. Depois de ter conseguido neutralizar a maior cadeia televisiva privada do país, o presidente Chavez decidiu apostar numa manobra constitucional para se eternizar no poder e, mais uma vez a comparação é não ser como América.
Numa Venezuela dividida ao meio, de um lado, pelos apoiantes do socialismo de Chavez e de outro, por todos aqueles que não estão com o presidente, o ar pesado do desconforto democrático que se respira através das actuações do presidente venezuelano, parece começar também a preocupar os seus vizinhos. Se até aqui o bloco constituído pela Venezuela de Chavez e a Bolívia de Ivo Morales tem sido visto com desconfiança, o acordo de entendimento entre o presidente venezuelano e o seu homologo iraniano veio acentuar ainda muito mais esta desconfiança. A recente oferta do presidente Chavez em mediar a questão Colombiana não está a cair bem em muitos espaços diplomáticos da região, a tal ponto que o senhor da Venezuela está a ser obrigado a mudar a linguagem de oferta. Resta saber ate que ponto a comunidade internacional refém do petróleo venezuelano continuará também refém da demagogia e do populismo do seu presidente.

Ps: publicado na revista prestígio do mês de Outubro.